Tinham a mesma idade e cresceram correndo juntos pelas ruas de areia da praia. Ele sempre na frente, se arremessando em disparada. De repente parava e espereva com aquele sorriso de cão vira-latas, com a lingua pingando do lado de fora da boca.
Às vezes fingia que se atirava, mas desistia, girando em torno del prá chamar a atenção.
Era assim que eles se amavam e não sabiam viver separados. Quando ela saia ele a levava até onde a mãe permitia e dali ia seguindo, com os olhos presos na menina, que também triste, lhe acenava num gesto delicado de mão espalmada e seus minúsculos dedinhos.
Ficava ali, parado na esquina, agarrado àquela imagem de menina muito branca, de cabelos cacheados, andando com suas perninhas magras e miúdas de quem ainda tinha muito que crescer.
Quando ela, de volta, dobrava a esquina, corria cego para alcançá-la, não importando o que trazia nem com quem vinha. Só ela interessava no seu mundo de fial cão vira-latas.
Ela, num gesto de carinho por tamanha lealdade, coçava-lhe a barriga e seguiam andando até que, novamente paravam e se enroscavam, como se ambos não tivessem ainda se livrado daquela saudade que lhes parecia tão grande quase dor.
Vi que viveram muitos verões, naquela felicidade só deles. Achava-se até que aquilo estava indo longe demais, mas por capricho da menina deixavam ficar. Afinal, já fazia parte da família.
Um dia, porém, a família se dividiu, quando o pai não queria mais a mãe e a mão não queria o cão. Só lhe interessava a filha.
Os pais se separaram e depois disso ele e a menina, que já não era mais a mesma, apenas se espiavam, calados. A família, um dia feliz, no outro já não existia mais.
De fita no cabelo e vestido de passeio, soube que ela teria de partir e, sem poder evitar, saiu para uma volta no quarteirão, distância pouca de calçada.
Desta vez ele andou ao lado dela e pressentindo o desalento, tentava sua graça.
Trotava, saltitava, rodopiava e de costas rolava no chão em banho de areia, mas a menina já não era a mesma...queria uma despedida.
Viram quando ela se sentou na guia da rua, querendo ser vira-latas também. Lembrou-se de como ele dormia enrodilhado no tapete da varanda, fizesse frio ou calor. Qis enrodilhar-se também no seu desamparo, mas resolveu voltar para casa, depois do que, despediram-se para sempre.
Nunca mais viram a menina, foi-se dalí, mudou-se para onde não poderia levar o cão - a casa da Tia Clarice - onde já havia outros dois como ele.
Ele, sem saber de nada, ainda ficou por uns meses rondando o quintal dela como um velho guardião, mas depois dedistiu, já não se sentindo cão.
Seu Eduardo o adotou mas o cachorro não aceitou, ele tinha a menina, sua dona.
Doeu nele a separação.
Todos diziam:
Lulu vai morrer de saudades da Silvinha.
Manda chamar senão ele morre.
Mas o que, ela não apreceu, a mão não queria vê-la sofrer mais.
Todos sabiam que se ela não viesse ele morreria.
Tanto que foi se acabando, se entregando à tristeza daquela infidelidade.
Disseram:
Hoje ele vai morrer.
E foi Assim.
Quando sua hora chegou eu estava ali, na varando do vô Eduardo, de bruços no chão, ao seu lado, me despedindo do meu primeiro amor platônico.