E o branco me tomou; mas não é um branco qualquer, esperado e incompreensível, como aqueles que assim como vêm, vão.
É aquele branco que não se admite, aquele que vem como tombo, depois de um grande passo; inaceitável, desesperado e de face insana.
Não é só um branco. È muito mais que isso. É um branco profundo e vazio, desprovido e cheio de ausências.
Meu professor de criação literária, essa semana, me disse que precisamos aprender a nos expôr, a nos envolver e chafurdar na realidade. Só assim se faz boas crônicas: quando se põe a realidade na roda e se chuta o pau da barraca.
Mas como se faz isso quando não é sobre a própria realidade que se quer escrever?
Já consegui fazer alguma crônica...até o dia em que para inventar uma história, matei meu pai. Eu fui capaz!
Na roda de leitura, todos acreditaram que eu ficara orgã aos 12 anos e, boquiabertos se comoveram com a minha infância infeliz. Quando, porém, souberam que aquilo não era real me crucificaram. Não houve tempo nem para críticas. Crucificaram, mas acho que no fundo gostaram daquela estória que num segundo deixou de existir.
Tinha uma li, bem experiente, que acho se chamava Fernanda.
Essa aí, eu vi!
Estava boquiaberta e de tão chocada que estava com a minha infância triste de menine órfã, me olhou e disse:
Puxa, seu pai morreu quando vc tinha 12 anos?
Eu, segura de que não fazia mal, respondi:
_Não. Meu pai está vivo até hoje.
Foi aí que senti todo o peso do universo daquela ficção sobre a minha cabeça.
Mas eu nem matei o pai por maldade. Adoro o pai. Só pensei que pudesse inventar.
Foi meu grande erro na última vez que tentei cronicar.
De lá para cá, venho tentando.
Sempre começo com uma idéia que considero muito boa, mas quando menos espero, lá estou eu inventando uma cena que não é minha, que não faz parte do meu cotidiano e que, portanto, não me pertence.
Também, minha vida é tão comum e igual a de todo brasileiro, que eu precisaria fazer um esforço muito grande para elevá-la ao encantamento que a crônica merece.
Pois é!
O que pode me fascinar nessa minha vida de mulher moderna, atarefada e cheia de responsabildades?
Passo a semana, pensando nas coisas que faço e vejo diariamente, desde quando acordo até o meu último segundo de insônia. Tudo, até meus sonhos, tendo converter em temas de crônica.
Mas qual?
Vou desde a minha preguiça para levantar de manhã, com meus filhos, os quatro, à minha volta, me chacoalhando o ombro, todos em coro:
Mãaae, vc não vai fazer o leite?
É bem verdade que nem sempre é assim.
Às vezes eles vêm de mansinho, um a um, agaixadinhos ao pé da cama, debruçados sobre o colchão, me olhando bem de pertinho e me perguntando:
Mãe, você não vai acordar?
Mão, eu já acordei!
Outras vezes, pretendendo cada um ser mais importante que o outro, começam ali mesmo na beirada da minha cama uma disputa em torno de quem acordou primeiro.
Eu acordei primeiro.
Não, fui Eu!
Eu, eu, eu!
E, como se essa fosse a coisa mais importante a me provarem, se engalfinham ali mesmo, me deixando louca, ocupando todo o meu tempo.
Agora mesmo, enquanto eu tento preencher de alguma forma esse meu branco, lá me vem o João, chorando porque o amigo o empurrou do patinete e ele ralou o dedo mindinho na parede.
_João, senta aí que eu já vejo.
Tenho que terminar uma coisa que estou escrevendo.
Ah, é!
Então escreve aí sobre o meu dedo ralado que dói muito!
Que dói o que, um raladinho de nada, nem deve estar doendo mais.
Você acha isso porque não é com você.
Espera um pouco, vai.
Mas o que eu faço?
Pega a caixa de remédios, João!
Mas passo o que?
Mertiolate, pô!
Você quer que eu morra? Mertiolate está proibido, você não sabia?
Sabia, mas esqueci.
Então pega mercúrio ou água buricada ou água oxigenada, o que quiser, mas me deixa escrever!!
Aflita, continuei correndo, agora para não perder uma palavra do que ele dizia, pois a essa altura, sem que eu saiba como aconteceu, esse conflito já se transformou no tema desse meu texto.
Presa no papel, de cabeça baixa, com o roller da caneta girando atrás daquele fato, eu ouvi o enorme silêncio que se instalou.
Quando levantei os olhos só pude vê-lo ali, me olhando, lindo, com seus cabelos cacheados e as bochechas avermelhadas do sol.
A sala pareceu se encher de uma graça qualquer e eu desatei num riso, numa gargalhada divetida e feliz.
Ele me olhou, sorrindo com aqueles dois dentões enormes recem-nascidos.
Você sempre dá essas gargalhadas misteriosas, que a gente nunca sabe porque; o que você vê não diz...
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