segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Vira-latas


     Tinham a mesma idade e cresceram correndo juntos pelas ruas de areia da praia.  Ele sempre na frente, se arremessando em disparada. De repente parava e espereva com aquele sorriso de cão vira-latas, com a lingua pingando do lado de fora da boca. 
     Às vezes fingia que se atirava, mas desistia, girando em torno del prá chamar a atenção. 
     Era assim que eles se amavam e não sabiam viver separados. Quando ela saia ele a levava até onde  a mãe permitia e dali ia seguindo, com os olhos presos na menina, que também triste, lhe acenava num gesto delicado de mão espalmada e seus minúsculos dedinhos. 
Ficava ali, parado na esquina, agarrado àquela imagem de menina muito branca, de cabelos cacheados, andando com suas perninhas magras e miúdas de quem ainda tinha muito que crescer. 
     Quando ela, de volta, dobrava a esquina, corria cego para alcançá-la, não importando o que trazia nem com quem vinha. Só ela interessava no seu mundo de fial cão vira-latas. 
     Ela, num gesto de carinho por tamanha lealdade, coçava-lhe a barriga e seguiam andando até que, novamente paravam e se enroscavam, como se ambos não tivessem ainda se livrado daquela saudade que lhes parecia tão grande quase dor. 
     Vi que viveram muitos verões, naquela felicidade só deles. Achava-se até que aquilo estava indo longe demais, mas por capricho da menina deixavam ficar. Afinal, já fazia parte da família. 
     Um dia, porém, a família se dividiu, quando o pai não queria mais a mãe e a mão não queria o cão. Só lhe interessava a filha. 
     Os pais se separaram e depois disso ele e a menina, que já não era mais a mesma, apenas se espiavam, calados. A família, um dia feliz, no outro já não existia mais. 
     De fita no cabelo e vestido de passeio, soube que ela teria de partir e, sem poder evitar, saiu para uma volta no quarteirão, distância pouca de calçada. 
     Desta vez  ele andou ao lado dela e pressentindo o desalento, tentava sua graça. 
     Trotava, saltitava, rodopiava e de costas rolava no chão em banho de areia, mas a menina já não era a mesma...queria uma despedida. 
     Viram quando ela se sentou na guia  da rua, querendo ser vira-latas também. Lembrou-se de como ele dormia enrodilhado no tapete da varanda, fizesse frio ou calor. Qis enrodilhar-se também no seu desamparo, mas resolveu voltar para casa, depois do que, despediram-se para sempre. 
     Nunca mais viram a menina, foi-se dalí, mudou-se para onde não poderia levar  o cão - a casa da Tia Clarice - onde já havia outros dois como ele.
     Ele, sem saber de nada, ainda ficou por uns meses rondando o quintal dela  como um velho guardião, mas depois dedistiu, já não se sentindo cão. 
     Seu Eduardo o adotou mas o cachorro não aceitou, ele tinha a menina, sua dona. 
     Doeu nele a separação. 
     Todos diziam:
     Lulu vai morrer de saudades da Silvinha. 
     Manda chamar senão ele morre. 
     Mas o que, ela não apreceu, a mão não queria vê-la sofrer mais. 
     Todos sabiam que se ela não viesse ele morreria. 
     Tanto que foi se acabando, se entregando à tristeza daquela infidelidade. 
     Disseram: 
     Hoje ele vai morrer. 
     E foi Assim. 
     Quando sua hora chegou eu estava ali, na varando do vô Eduardo, de bruços no chão, ao seu lado, me despedindo do meu primeiro amor platônico.

Minhas Leituras


     Tenho lido tantos autores...
     Todos falam de mim, do mesmo sentimento de mundo, da smesmas dificuldades e angustias.  Mas isso não me basta, afinal de contas quem garante que todos os homens da face da terra não tenham a mesma impressão.
     Ler os grandes escritores tem me ajudado muito a reconhecer que não há nada que eu deva saber, senão que preciso apenas de esforço, paciência e determinação. Dispor de todo o tempo possível na busca da reflaxão e do pensamento.
     Os conselhos são muitos e sempre bem vindos a uma cronista iniciante, mas cada um deve seguir seu próprio caminho como melhor lhe parecer e certamente os métodos de criação de cada um devem variar ou não.
     Eu, de minha parte, preciso mesmo é me organizar e estabelecer uma rotina de trabalho que me possibilite algum isolamento para a criação.
     Aliado a isso há um volume infinito de autores novos. Para cada livro novo  uma lista de referências importantes e indispensáveis. Meu rol está crescendo dia-a-dia, muito embora eu venha mantendo um ritmo de leitura avassalador, com três livros por semana. Apesar disso a lista não para de crescer, razão porque já não sigo mais a ordem cronológica das indicações, mas a ordem de importância das obras, segundo minha curiosidade pelo autor.
     Já li demais sobre estética e estilística, etc...Nestas últimas semanas, porém, deixei de lado estes e suas regras para me dedicar ao que os escritores mesmos têm a me dizer.
Coclusão: Eles desprezam os estetas e estilistas. Também o que se percebe, do ponto de vista do escritor, é que os teóricos discutem  o produto final da obra, não se preocupam com a essência da obra, daquilo que faz um homem precisar tanto da palavra para ser feliz!
     Por isso, beber diretamente da fonte dos criadores tem me ensinado muito e me consolado um pouco dessa solidão literária, desse esvaziamento de experiências.
     Quero dizer com isso que os  criadores sabem  que a solidão na criação é inevitável e por isso cada obra é única, sabem disso e convivem bem. Mas não dá para aceitar a falta de solidariedade e comunicação.
     Fico pensando com quem poderia me comunicar hoje, trocar idéias. Com quem e onde eu poderia fazlar sobre o meu sentimento literário. Tem sido difícil  encontrar um parceiro para  trocar experiências. Primeiro porque tenho observado que aqueles que julgam "escrever bem", o que, todos nós sabemos, não se confunde com ser escritor, não convivem sem aquele ar de arrogância e prepotência. Não estão preocupados com a poesia, com o pensamento, apenas com o que estão derramando sobre as páginas brancas. É o estilo dos que usam expressões apressadas, fortes mas vazias  de lirismo, paixão e beleza.
     Para isso é preciso comtemplação.
     Contemplar o mundo não é tarefa fácil, nos traz muito sofrimento.  Não sei se de medo sobre o que seja a perda do Belo com a morte, nem se por consiência da nossa inutilidade  para o Belo, não se  porque descobrimos que também fizemos parte do Belo, mas já não estamos mais lá.
     Talvez um sentimento original e primitivo que, de tão anterior à palavra, por ela não pode ser percebido.  Está dentro do homem, como uma lembrança, uma impressão. A fala que criamos foi para o mundo, para a comunicação exterior. A outra não, é anterior à comunicação, de quando o homem era apenas ele e seus desejos, sonhos e medos.

O dia em que resolvi arrumar meu quarto.


     _Mãe, cadê meus patins? 
     _Estão na caixa de brinquedos, debaixo da janela. 
     _Não estão não!
     _Estão sim!
     -Debaixo da janela só tem uma enorme beliche!
     -Puxa João sua mãe mudou sua cama de lugar de novo?
     É que ela gosta de mudar os móveis. 
     Mas ela mexe todo dia?
     Não, tem dia que não. 
     -Ah bom!
     -Mas no outro ela vira duas vezes. É legal. Quando ela arrasta o sofá eu brinco de barco em alto mar. 
     Sua mãe é legal, a minha nunca faz isso pra mim.
     Se você quiser a gente pode ficar por aqui, daqui a pouco ela vai virar. 
     -Como você sabe?
     _Ela  não fez nenhuma vez ainda hoje!
     Ao ouvir o diálogo entre meu filho e o vizinho, me perguntei o que havia de errado comigo, se eu era uma mulher estranha.
     Talvez não tivesse nada de errado em querer mudar  os móveis de casa ao menos duas vezes ao dia. Na dúvida, resolvi não fazer aquele dia. 
     Decididamente, não mudaria uma agulha de lugar, nada. Aguentaria todas aquelas coisas exatamente como estavam, pelo menos até amanhã. 
     Afinal, que diabos de vontade incontrolável era essa de ficar virando os móveis o tempo todo. Fiquei pensando em como se sentiu meu marido no dia em que tentou se lembrar onde deixara o controle remoto antes de sair de casa. 
      -Vou refazer o mesmo caminho, disse. Tenho certeza de que vou me lembrar. 
      Mas o caminho já não era mais o mesmo; a sala já não era mais a mesma. A poltrona onde abandonara o controle já não estava mais lá. Tudo muito rápido, numa fraçao de hora e a casa já não era mais a mesma. 
     Eu precisava mudar!Sempre!
   Mas hoje não faria.  Não moveria nada, nem o pó dos móveis, nem os brinquedos espelhados, nem as almofadas esquecidas no chão. Nada!
     Fácil na primeira hora. Nem tanto na segunda. 
     Na terceira já estava aflita. 
     -João, filho, liga para o pai e fala que precisamos sair. 
     -Vamos pra casa de alguém. Diz que da vó. 
     Mas, agora? Você nem mudou a casa hoje!
     Nem vou mudar. Vai ficar tudo como está. 
     Tem certeza mãe? 
     Tenho, vamos! 

     Descemos a serra do mar  e descendo fui me lembrando como naqueles dias de mudança, quando tudo se arrastava pela sala, as noites eram de incertezas. 
     Já faz muito tempo!
     Nem podia entender que comichão era aquele que movia minha mãe; não compreendia porque, sabendo que meu pai odiava que mudássemos os móveis, ela, contrariando seus desejos, de tempos em tempos o fazia. 
    Nos meus seis anos, miúda e introvertida, me divertia com toda aquela agitação com os móveis de um lado para o outro à tarde toda, transformando o sofá em barcos naufragados e automóveis conversíveis que a minha imaginação de criança não poupava. 
     Como era fascinante  experimentar a nova disposição, redescobrir os novos cantos do quarto, explorar os novos espaços da casa; a cama antes de frente para a porta, agora embaixo da janela. Pular de uma cama para a outra tinha outro sabor. 
     Eu e minha mãe brincavamos de transformar o nosso mundo. 
     Bastava um movimento do guarda-roupas e pronto, lá estava um novo corredor, um novo caminho para nós. Apesar da minha cumplicidade, aquela audácia às vezes me parecia desnecessária, mas insistíamos desafiadoras, até que meu pai ficou bravo mesmo. Tão bravo que sua ira se transformou numa mensagem silenciosa, numa exclamação muda, que nos bastou para sempe.  Talvez naquele dia ele precisasse muito de nossa casa como sempre foi.  Tudo exatamente como deixou pela manhã, sem mudanças ou surpresas. Nós e os móveis ali, esperando sua chegada. 
     Nunca mais mudamos os móveis da casa e depois disso meu quarto se fossilizou. no máximo eu mudava a posição dos tapetinhos que beiravam a cama, mas apenas um pelo outro. As mudanças necessárias, guardei-as entre as páginas dos livros que lia,  acreditando que ninguém jamais as descobrissem. 
     Hoje, 14 anos depois, chegando na casa de meus pais, quis arrumar aquele quarto que minha conservou fechado ao longo dos anos. 
     -Pai? Espero que me perdoe mas essa faxina é necessária. 
     Passado o nervosismo à porta que não se abria, ascendi a luz e pude então reconhecer os tapetinhos ainda confinados como os deixara.
     Como a mãe pode  manter aqui, tudo exatamente como deixei: o bloco de folhas, agora amareladas, pintadas de ferrugem, ainda traziam minhas anotações, canetas ressecadas,  e os deliciosos e insuperáveis cadernos do colégio. 
     Engraçado ver agora a letra tão diferente, era minha. 
     Dizem que a letra revela a personalidade do indivíduo, a minha mudou para a pior. Será que mudei para a pior, agora inelegível? 
     Que saudades!
     Daquele jeito parado e quieto de ficar ali, recostada em qualquer lugar, não precisava ser confortável, bastava  que fosse um canto com ares de aconchego, onde eu pudesse gastar as minhas horas arrastando a cadeira, entre um capítulo e outro de meus livros, à procura do sol, até que o último fio de  luz desaparecesse. 
     Como é bom saber que um pouco de mim ainda existe.
     Não sei até que horas fique ali,  soprando o pó  daqueles objetos transformados em relíquia; coisas perdidas ou deixadas. 
     Quando acordei no dia seguinte, liguei em casa para saber como estava meu marido. 
     Atendeu ao telefone com uma voz preocupada. 
     -O que está acontecendo, você está bem? Perguntei. 
     -Nada, apenas que quando cheguei em casa encontrei os móveis exatamente do jeito como estavam pela manhã!
     Éh, sem dúvida... eu sou uma mulher estranha...




Minha Glória Literária

E o branco me tomou; mas não é um branco qualquer, esperado e incompreensível, como aqueles que assim como vêm, vão.
É aquele branco que não se admite, aquele que vem como tombo, depois de um grande passo; inaceitável, desesperado e de face insana. 
Não é só um branco. È muito mais que isso. É um branco profundo e vazio, desprovido e cheio de ausências.
Meu professor de criação literária, essa semana,  me disse que precisamos aprender a nos  expôr, a nos envolver e chafurdar na realidade. Só assim se faz boas crônicas: quando se põe a realidade na roda e se chuta o pau da barraca.
Mas como se faz isso quando não é sobre a própria realidade que se quer escrever? 
Já consegui fazer alguma crônica...até o dia em que para inventar uma história, matei meu pai. Eu fui capaz!
Na roda de leitura, todos acreditaram que eu ficara orgã aos 12 anos e, boquiabertos se comoveram com a minha infância infeliz. Quando, porém, souberam que aquilo não era real me crucificaram. Não houve tempo nem para críticas. Crucificaram, mas acho que no fundo gostaram daquela  estória que num segundo deixou de existir. 
Tinha uma li, bem experiente, que acho se chamava Fernanda. 
Essa aí, eu vi!
Estava boquiaberta e de tão chocada que estava com a minha infância  triste de menine órfã, me olhou e disse: 
Puxa, seu pai morreu quando vc tinha 12 anos? 
Eu, segura de que não fazia mal, respondi: 
 _Não. Meu pai está vivo até hoje. 
Foi aí que senti todo o peso  do universo daquela ficção sobre a minha cabeça. 
Mas eu nem matei o pai por  maldade. Adoro o pai.  Só pensei que pudesse inventar. 
Foi meu grande erro na última vez que tentei cronicar. 
De lá para cá, venho tentando. 
Sempre começo com uma idéia que considero muito boa, mas quando menos espero, lá estou eu inventando uma cena que não é minha, que não faz parte do meu cotidiano e que, portanto, não me pertence. 
Também, minha vida é tão comum e igual a de todo brasileiro, que eu precisaria fazer um esforço muito grande para elevá-la ao encantamento que a crônica merece. 
Pois é!
O que pode me fascinar nessa minha vida de mulher moderna, atarefada e cheia de responsabildades?
Passo a semana, pensando nas coisas  que faço e vejo diariamente, desde quando acordo até o meu último segundo de insônia. Tudo, até meus sonhos, tendo converter em temas de crônica. 
Mas qual?
Vou desde a minha preguiça para levantar de manhã, com meus filhos, os quatro, à minha volta, me chacoalhando o ombro, todos em coro: 
Mãaae, vc não vai fazer o leite? 
É bem verdade que nem sempre é assim. 
Às vezes eles vêm  de mansinho, um a um, agaixadinhos ao pé da cama, debruçados sobre o colchão, me olhando bem de pertinho e me perguntando: 
Mãe, você não vai acordar? 
Mão, eu já acordei!
Outras vezes, pretendendo  cada um ser mais importante que o outro, começam ali mesmo na beirada da minha cama uma disputa em torno de quem acordou primeiro. 
Eu acordei primeiro. 
Não, fui Eu!  
Eu, eu, eu!
E, como se essa fosse a coisa mais importante a me provarem, se engalfinham ali mesmo, me deixando louca, ocupando todo o meu tempo.
Agora mesmo, enquanto eu tento preencher de alguma forma esse meu branco, lá me vem o João, chorando porque o amigo o empurrou do patinete e ele ralou o dedo mindinho na parede. 
 _João, senta aí que eu já vejo. 
Tenho que terminar uma coisa que estou escrevendo. 
Ah, é!
Então escreve aí sobre o meu dedo  ralado que dói muito!
Que dói o que, um raladinho de nada, nem deve estar doendo mais. 
Você acha isso porque não é com você.
Espera um pouco, vai. 
Mas o que eu faço? 
Pega  a caixa de remédios, João!
Mas passo o que? 
Mertiolate, pô!
Você quer que eu morra? Mertiolate está proibido, você não sabia? 
Sabia, mas esqueci. 
Então pega mercúrio ou água buricada ou água oxigenada, o que quiser, mas me deixa escrever!!
Aflita, continuei correndo, agora para não perder  uma palavra do que ele dizia, pois a essa altura, sem que eu saiba como aconteceu, esse conflito já se transformou no tema desse meu texto. 
Presa no papel, de cabeça baixa, com o roller da caneta girando atrás daquele fato, eu ouvi o enorme silêncio  que se instalou. 
Quando levantei os olhos só pude vê-lo ali, me olhando, lindo, com seus cabelos cacheados e as bochechas avermelhadas do sol.
A sala pareceu se encher de uma graça qualquer e eu desatei num riso, numa gargalhada divetida e feliz. 
Ele me olhou, sorrindo com aqueles dois dentões enormes recem-nascidos. 
Você sempre dá essas gargalhadas misteriosas, que a gente nunca sabe porque; o que você vê não diz...