segunda-feira, 9 de abril de 2012

O dia em que resolvi arrumar meu quarto.


     _Mãe, cadê meus patins? 
     _Estão na caixa de brinquedos, debaixo da janela. 
     _Não estão não!
     _Estão sim!
     -Debaixo da janela só tem uma enorme beliche!
     -Puxa João sua mãe mudou sua cama de lugar de novo?
     É que ela gosta de mudar os móveis. 
     Mas ela mexe todo dia?
     Não, tem dia que não. 
     -Ah bom!
     -Mas no outro ela vira duas vezes. É legal. Quando ela arrasta o sofá eu brinco de barco em alto mar. 
     Sua mãe é legal, a minha nunca faz isso pra mim.
     Se você quiser a gente pode ficar por aqui, daqui a pouco ela vai virar. 
     -Como você sabe?
     _Ela  não fez nenhuma vez ainda hoje!
     Ao ouvir o diálogo entre meu filho e o vizinho, me perguntei o que havia de errado comigo, se eu era uma mulher estranha.
     Talvez não tivesse nada de errado em querer mudar  os móveis de casa ao menos duas vezes ao dia. Na dúvida, resolvi não fazer aquele dia. 
     Decididamente, não mudaria uma agulha de lugar, nada. Aguentaria todas aquelas coisas exatamente como estavam, pelo menos até amanhã. 
     Afinal, que diabos de vontade incontrolável era essa de ficar virando os móveis o tempo todo. Fiquei pensando em como se sentiu meu marido no dia em que tentou se lembrar onde deixara o controle remoto antes de sair de casa. 
      -Vou refazer o mesmo caminho, disse. Tenho certeza de que vou me lembrar. 
      Mas o caminho já não era mais o mesmo; a sala já não era mais a mesma. A poltrona onde abandonara o controle já não estava mais lá. Tudo muito rápido, numa fraçao de hora e a casa já não era mais a mesma. 
     Eu precisava mudar!Sempre!
   Mas hoje não faria.  Não moveria nada, nem o pó dos móveis, nem os brinquedos espelhados, nem as almofadas esquecidas no chão. Nada!
     Fácil na primeira hora. Nem tanto na segunda. 
     Na terceira já estava aflita. 
     -João, filho, liga para o pai e fala que precisamos sair. 
     -Vamos pra casa de alguém. Diz que da vó. 
     Mas, agora? Você nem mudou a casa hoje!
     Nem vou mudar. Vai ficar tudo como está. 
     Tem certeza mãe? 
     Tenho, vamos! 

     Descemos a serra do mar  e descendo fui me lembrando como naqueles dias de mudança, quando tudo se arrastava pela sala, as noites eram de incertezas. 
     Já faz muito tempo!
     Nem podia entender que comichão era aquele que movia minha mãe; não compreendia porque, sabendo que meu pai odiava que mudássemos os móveis, ela, contrariando seus desejos, de tempos em tempos o fazia. 
    Nos meus seis anos, miúda e introvertida, me divertia com toda aquela agitação com os móveis de um lado para o outro à tarde toda, transformando o sofá em barcos naufragados e automóveis conversíveis que a minha imaginação de criança não poupava. 
     Como era fascinante  experimentar a nova disposição, redescobrir os novos cantos do quarto, explorar os novos espaços da casa; a cama antes de frente para a porta, agora embaixo da janela. Pular de uma cama para a outra tinha outro sabor. 
     Eu e minha mãe brincavamos de transformar o nosso mundo. 
     Bastava um movimento do guarda-roupas e pronto, lá estava um novo corredor, um novo caminho para nós. Apesar da minha cumplicidade, aquela audácia às vezes me parecia desnecessária, mas insistíamos desafiadoras, até que meu pai ficou bravo mesmo. Tão bravo que sua ira se transformou numa mensagem silenciosa, numa exclamação muda, que nos bastou para sempe.  Talvez naquele dia ele precisasse muito de nossa casa como sempre foi.  Tudo exatamente como deixou pela manhã, sem mudanças ou surpresas. Nós e os móveis ali, esperando sua chegada. 
     Nunca mais mudamos os móveis da casa e depois disso meu quarto se fossilizou. no máximo eu mudava a posição dos tapetinhos que beiravam a cama, mas apenas um pelo outro. As mudanças necessárias, guardei-as entre as páginas dos livros que lia,  acreditando que ninguém jamais as descobrissem. 
     Hoje, 14 anos depois, chegando na casa de meus pais, quis arrumar aquele quarto que minha conservou fechado ao longo dos anos. 
     -Pai? Espero que me perdoe mas essa faxina é necessária. 
     Passado o nervosismo à porta que não se abria, ascendi a luz e pude então reconhecer os tapetinhos ainda confinados como os deixara.
     Como a mãe pode  manter aqui, tudo exatamente como deixei: o bloco de folhas, agora amareladas, pintadas de ferrugem, ainda traziam minhas anotações, canetas ressecadas,  e os deliciosos e insuperáveis cadernos do colégio. 
     Engraçado ver agora a letra tão diferente, era minha. 
     Dizem que a letra revela a personalidade do indivíduo, a minha mudou para a pior. Será que mudei para a pior, agora inelegível? 
     Que saudades!
     Daquele jeito parado e quieto de ficar ali, recostada em qualquer lugar, não precisava ser confortável, bastava  que fosse um canto com ares de aconchego, onde eu pudesse gastar as minhas horas arrastando a cadeira, entre um capítulo e outro de meus livros, à procura do sol, até que o último fio de  luz desaparecesse. 
     Como é bom saber que um pouco de mim ainda existe.
     Não sei até que horas fique ali,  soprando o pó  daqueles objetos transformados em relíquia; coisas perdidas ou deixadas. 
     Quando acordei no dia seguinte, liguei em casa para saber como estava meu marido. 
     Atendeu ao telefone com uma voz preocupada. 
     -O que está acontecendo, você está bem? Perguntei. 
     -Nada, apenas que quando cheguei em casa encontrei os móveis exatamente do jeito como estavam pela manhã!
     Éh, sem dúvida... eu sou uma mulher estranha...




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